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Apr 18, 2010

Alguns conseguem...ser o gênero


O conceito de gênero é um dos mais curiosos da espécie humana. Inicialmente ligado ao sexo, logo podemos desconstruí-lo em pedaços tão complexos que fogem à própria razão e entendimento fácil.

Meninos usam azul, meninas rosa. Calças e saias. O grave e o suave. Características intrínsecas de cada sexo, com as quais é difícil teorizar muito sem cair na psicanálise, no símbolo.

De certo não interessa descobrir tudo, até porque as diferenças entre os sexos existem e elas sempre serão respeitadas. O problema acontece quando tentamos inutilmente classificar e banir os seres que ultrapassam o limite do que se deve ser (ou do que se deveria).

Esse limite não existe na prática, só na convenção. Não se restringe apenas em homens efeminados e mulheres firmes; vai à questão do “sentir”. Os transexuais continuam sendo o maior desafio da nossa sociedade neste quesito. Poucos, mas também corajosos, há muitos que passam anos e não se submetem a nenhuma cirurgia, a não ser a de retirada dos seus próprios sentimentos, no dia-a-dia de um mundo massificante.

May 10, 2009

Alguns conseguem...trair

Judas e seu amante, Jesus, traído como todos nós já sabemos

Muito ainda se discute sobre a traição, talvez o último dos tabus medievais do ser humano contemporâneo. Do rico ao pobre, todos a sentem. A temem. A condenam. O traidor na nossa sociedade é alguém malvado, sem escrúpulos, que mente como quem vai ao supermercado. Alguém sem chance de defesa.

Se levarmos a discussão sobre traição amorosa, aí é que a coisa fica complexa e trágica. Primeiro porque existe o mito que amar é se aprisionar, é ser uma espécie de celibatário para uma pessoa. Mas o que seria trair hoje em dia? Pensar em alguém com desejo? É ir ao encontro desse alguém? Qual a diferença entre as duas ações?

Segundo porque a traição pode significar duas coisas diferentes para cada um. Para o homem é o sexo: Alguém utilizou seu brinquedo de uma maneira mais criativa que ele. Para a mulher, o compromisso e a rejeição. Alguém mais bonita passou na frente de casa. Para os dois, algo inaceitável numa relação dita séria (saudade de Sartre e Simone de Beauvoir).

Freud dizia que a fantasia é o caminho certo pra cura. Talvez devêssemos encarar o adultério desse jeito: mais um sonho realizado do que uma questão de caráter. Assim, além de diminuir drasticamente o sofrimento, não usaríamos tanto as leis tipo “Maria da Penha” e espaços nas páginas policiais.

Mar 15, 2009

Alguns conseguem...amar os animais

Santa Dog - Deve ser difícil ser um bicho de estimação

Me deparo sempre com pessoas que dariam a própria vida pelos animais. Digo, pelos seus bichos de estimação. Qual a diferença? Explico. Os animais são seres de várias espécies que habitam o planeta terra juntamente com os seres humanos. Os bichos de estimação também são seres de várias espécies “dotados da árdua missão de servir aos seres humanos”.

É comum nos ultrajarmos com todo o mimo que especialmente gatos e cachorros recebem como se fossem meros brinquedos. Mas é o que eles são na nossa sociedade. E que como qualquer produto, têm seu ciclo de uso. Sem abordar outras problemáticas do meio, como os zoologicos, o consumo de carne etc, falemos dos ditos "domésticos".

Dar um bichinho de presente não é um gesto 100% condenável. Você permite que aquele que foi abandonado tenha um lar decente e o mínimo de cuidados que favoreça sua sobrevivência. Mas quando a coisa atinge a economia de mercado a situação fica cruel e repetitiva.

O processo começa com a escolha: a raça, o pedigree, a linhagem. Tudo isso altera o preço, raças que valem mais ou menos, dependendo do que é cool no momento. No período de “uso” do bicho, eles ficam trancados dias inteiros, só existindo para seus donos nos fins de semana. Ou são obrigados a passeios intermináveis - às vezes até dentro de carrinhos de bebês - que para quem tem o corpo coberto por uma grossa camada de pelos, deve ser de um calor infernal.

Por último, o descarte. Em média, após oito ou nove anos, o totó ou o miau não tem mais aquela alegria e não encanta tanto aos pequenos, que já pedem a compra de mais um “irmãozinho”. Ele vai ficando mais e mais no quartinho de empregada até que num belo dia, o tormento acaba com uma ida ao veterinário; sacrifica-se. Isso na melhor hipótese. Ainda tem aqueles que como sobras de uma grande indústria, são destinados ao lixo, que são as ruas e os bares. Com um diferencial, neste caso não há reciclagem.

Feb 14, 2009

Alguns conseguem...viver no campo

O Violeiro, Almeida Jr.

"Eu quero uma casa no campo"- Já dizia a nostálgica Elis Regina nos anos 70. Aliás, não só ela. João Bosco (Rancho da Goiabada) e Zé Ramalho (Vida de Gado) também fizeram sua apologia à suposta cultura do interior brasileiro. Aliás, esse mito também sempre existiu na TV. Basta olhar as novelas. Quantas histórias já se passaram em cidades pequenas: O Bem Amado, Roque Santeiro, Irmãos Coragem, só para ficar nas mais conhecidas.

Vamos lá. O homem do campo é bom, mas o da cidade também é. Os valores rurais são antigos e tradicionais, mas isso não quer dizer nada. As tradições aprisionam, o controle social enrijece vidas que poderiam ser mais interessantes; sempre penso nas pessoas que poderiam mudar o mundo e que podem estar aprisionadas em um cartório, em uma venda ou até em uma indústria, apenas pela falta de oportunidades de fazer mais e melhor. Deixar de viver na cidade pode ser mais barato, mas também tem o seu preço.

Não me compreendam mal. Nada tenho contra em morar numa cidadezinha de 10 mil habitantes ou até em cidades que pretendem ser grandes, mas possuem mentalidade inversamente proporcional ao seu número de habitantes; tudo pode ter seu charme. Olhando pela perspectiva de um idoso ou de um incapacitado, não deve existir nada melhor que acordar de manhã com o orvalho escorrendo pelas janelas ou com qualquer outro espetáculo da natureza na sua porta.

De fato, trocar o sossego por uma cultura cosmopolita, acelerada, pode lhe tirar alguns anos de vida. Todavia, para qualquer ser humano em idade economicamente, socialmente e sexualmente ativa, não existe nada melhor. Apenas a cidade civiliza, pois abriga as diferenças, o interior as deixa mais evidentes. Além disso, não precisa ser minoria para querer ter a sua intimidade preservada. É muito bom não ter que explicar quem era o rapaz que entrou no seu apartamento às 03h da manhã; ou ninguém reparar na sua roupa que está abarrotada ou porque você se separou do marido.

O ser humano é um bicho mutante. Algum lugar deste planeta deve funcionar como um laboratório de experimentações, de novas formas e estilos de vida, só assim a cultura vai se expandindo. Este lugar é a cidade e quanto maior ela for, melhor vai cumprir essa função. É certo que nem todo mundo reflete sobre a própria existência e nem faz questão de transgredir, isso é para a minoria pensante. De qualquer forma, a vida faz mais sentido quando damos vazão aos caprichos da vivência e não apenas quando nos preocupamos com o pão de cada dia. Nem que seja para daqui a 30 anos, tudo o que de mais emocionante que você tenha para fazer seja assistir carneiros e cabras pastando solenes no seu jardim.

Jan 10, 2009

Alguns conseguem...ser adultos

Saiorse Ronan como Briony, a cara já diz tudo.

Estive nos últimos dias assistindo ao filme “Desejo e Reparação”(Atonement, 2007) e um ponto da trama me chamou bastante atenção. No filme,a personagem da atriz Saiorse Ronan, Briony, vive espionando sua irmã e seu namoradinho, enquanto escreve e imagina situações reais ou imaginárias. Não veria problema se por causa da crescente inveja e rancor – alimentados pela escrita – ela não criasse uma mentira que afastaria sua irmã do namoradinho para sempre.

Me perguntei durante o filme, qual seria a sua maior motivação para que ela agisse assim. Inveja? Com certeza, mas não só isso. Observei muita impotência nas suas atitudes, muito sofrimento por não poder concorrer com a sensualidade e rebeldia da irmã. Muita dor por não ser enxergada como gostaria pelo galãzinho. Isso é perigoso. Especialmente quando se é criança ou adolescente - Quando os sentimentos muitas vezes não casam com o corpo e com a cabeça que se tem. Cheguei à conclusão que se ela fosse adulta, poderia ter agido diferente. Fosse jogando o seu charme, fosse sufocando as mágoas com outro alguém. Não importa.O ato foi infantil e é assim que agem as crianças que não podem lutar como adultos, embora psicologicamente estejam entre eles. Ser imaturo não é um problema, quando se respeita os limites da ação e da reação - Quando as armas são as mesmas dos seus inimigos.

Uma criança manipular a verdade que contenha conceitos dos quais ainda não faz parte (como amor, traição, sexo) é tão perigoso quanto um adulto aproveitar a confiança que dispõe da família para se aproveitar sexualmente do pequeno (que às vezes nem é tão inocente assim, mas enfim, todo tipo de coação é condenável); e nessa história, os menores de 18 anos podem ser tão maníacos quanto qualquer adulto - os convencionais culpados. Não esqueçamos que ambos são seres iguais, apenas em estágios diferentes.

Dec 28, 2008

Alguns conseguem...celebrar

Típica família americana comemorando o Natal

Segundo o dicionário, celebrar significa exaltar, louvar ruidosamente, cumprir solenemente um ritual religioso. Dissecando um pouco mais essa palavra, e mais ainda, o conceito, chegamos a um impasse: Quem comanda uma data comemorativa? O cérebro, uma divindade?Quem está por trás disso?Bom, não sei se teremos uma resposta, mas o importante é questionar.

Não me esperem ouvir falar mal do Natal e das festas de final de ano ou de qualquer outra. Elas têm a sua função. No caso do Natal, aproxima as famílias distantes, deixa as cidades mais bonitas - coisa necessária em algumas metrópoles brasileiras - Além de aquecer a economia. No entanto, se o mundo fosse só isso, estaríamos felizes, como vacas de presépio.

O mundo ocidental segue uma lógica invisível, uma orquestração para que tudo se mantenha sob controle. Controle social. E isso é mais forte do que a Igreja Católica (eventual culpada por tais eventos) e muito mais forte do que a própria cristandade. Antropólogos poderiam explicar melhor, mas não só eles, economistas, filósofos, cientistas etc. A força das celebrações de massa – especialmente o Natal, a maior delas – é algo alquímico, algo que ultrapassa os limites do nosso entendimento. Um processo que vem se desenrolando há séculos e que pra onde ninguém sabe. Alem do bem ou do mal, é bom termos apenas consciência do que isso significa, mesmo que pra isso montemos o nosso núcleo particular de resistência – não apenas aos eventos, mas à mediocridade vestida de paz.

Aug 10, 2008

Alguns conseguem...Ser pai

Pai e Filho (2003), Filme de Alexander Sokurov

Pensar a paternidade é sempre entrar num universo cercado pela polêmica, primeiro porque não há nem uma evidência aparente sobre ela, a não ser a semelhança física; segundo porque hoje, num universo de milhões de mães solteiras no Brasil, fora outros tantos mundo a fora, acaba se tornando uma figura meramente alegórica, sem utilidade. Desde os tempos antigos, o pai costuma ser ligado à força, à energia vital, ao enquadramento do indivíduo na sociedade. Pai é aquele que estimula o vencimento de barreiras, o que instrui para a competição e o que também repassa todas as vísceras culturais daquela sociedade, i.e., os palavrões, “a coçada”. Esteticamente falando, temos várias referências culturais sobre os pais, desde Fábio Jr. e seu clássico dos anos 80 até o próprio papa, depois que sua figura virou pop. Ao longo da história, o pai foi o senhor das Casas Grandes, na sociedade patriarcal, na definição romântica de família, era consultado quando o rapaz ia arduamente pedir a mão da mocinha.

A degradação do pai é a própria descentralização da sociedade na figura do homem, mas isso é uma outra discussão, o que podemos ver por alto é que a maioria dos presos e assassinados são homens e existe mais de um milhão de crianças sem pai, portanto, eis a pergunta: quem seria este ser fantástico?Um esperma (entre milhões)? O padrasto? Ninguém? - O que faz o pai? Ele paga as contas? Não. Ele estabelece regras? Não. Ele dá um aconchego emocional à família? Não.

Talvez o pai de hoje seja uma entidade virtual, aquele que chega de repente e se estabelece como uma fonte de informações sobre este mundo, que para alguns é Jesus ou o Padre Marcelo Rossi, para outros é o vereador da cidade. Até o jogador Ronaldinho pode ser visto como uma espécie de pai para milhares de torcedores. Considerando também que mulheres sempre supriram muito bem este lado, podemos dizer que apenas alguns conseguem ser pai não porque estamos numa sociedade libertária de mulheres evoluídas e independentes, mas porque esta figura ainda carece de utilidade neste nosso mundo contemporâneo.