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May 10, 2009

Alguns conseguem...trair

Judas e seu amante, Jesus, traído como todos nós já sabemos

Muito ainda se discute sobre a traição, talvez o último dos tabus medievais do ser humano contemporâneo. Do rico ao pobre, todos a sentem. A temem. A condenam. O traidor na nossa sociedade é alguém malvado, sem escrúpulos, que mente como quem vai ao supermercado. Alguém sem chance de defesa.

Se levarmos a discussão sobre traição amorosa, aí é que a coisa fica complexa e trágica. Primeiro porque existe o mito que amar é se aprisionar, é ser uma espécie de celibatário para uma pessoa. Mas o que seria trair hoje em dia? Pensar em alguém com desejo? É ir ao encontro desse alguém? Qual a diferença entre as duas ações?

Segundo porque a traição pode significar duas coisas diferentes para cada um. Para o homem é o sexo: Alguém utilizou seu brinquedo de uma maneira mais criativa que ele. Para a mulher, o compromisso e a rejeição. Alguém mais bonita passou na frente de casa. Para os dois, algo inaceitável numa relação dita séria (saudade de Sartre e Simone de Beauvoir).

Freud dizia que a fantasia é o caminho certo pra cura. Talvez devêssemos encarar o adultério desse jeito: mais um sonho realizado do que uma questão de caráter. Assim, além de diminuir drasticamente o sofrimento, não usaríamos tanto as leis tipo “Maria da Penha” e espaços nas páginas policiais.

Jun 29, 2008

Alguns conseguem...ter caráter

Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819), o "Judas" brasileiro

A definição de caráter em qualquer dicionário é a mesma de personalidade, convicção, vontade, determinação natural. “Bertrand tem caráter”- Bertrand tem opinião, postura, certeza do que quer. Mas será que a realidade nos mostra isso?. Em todas as situações da vida lidamos com a questão do caráter, observamos infelizes que escorregam nele e somos cobrados para tê-lo. Especialmente nos meios corporativos, em que a ética é moeda de troca para promoção, plano de carreira, e benefícios, isso pode ser muito relativo. Hoje em dia, caráter é o positivo, é a qualidade de ser justo, de estar à altura de qualquer verificação aleatória de honestidade. Uma espécie de bafômetro para a santidade. Acontece que atualmente poderíamos arranjar um sinônimo para caráter: interesse. Fugindo do sentido religioso da coisa, temos dois lados para a mesma história, o do conceito e da moral. Seria Judas uma pessoa de caráter? Talvez não. Seria Pilatos, uma pessoa de caráter? Também não.

A fraqueza de Judas na traição ao seu mestre foi um gesto de incoerência, uma desobediência infantil por 30 pratas, algo que não lhe deixaria rico nem tampouco significava seu objetivo de vida, um interesse banal. Já o gesto do segundo, foi uma reação coerente para o povo e para o Império do qual fazia parte. Como funcionário romano, não era esperada nenhuma atitude diferente. Neste caso, por mais que Pilatos tivesse caráter, a sua obediência foi movida pelo interesse de se manter no cargo e não causar maiores transtornos para a ordem.

É preciso resgatar o sentido original desta palavra nos dias de hoje. Agir pelo interesse ególatra, ok, somos humanos. Agir com caráter, sempre, é necessário. Valorizar o verdadeiro caráter é cortar à navalha a moral; A mesma que garante ao humano a sua sobrevivência, lhe corta as asas da evolução. Sem crescer, o homem não se sustenta, acaba sendo levado pelas correntezas do momento, se torna um mero coadjuvante da sua própria história. Quem já não foi Judas ou Pilatos? Nem precisa dizer que apesar das motivações diferentes, eles próprios tiveram o mesmo destino, o suicídio.