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Feb 14, 2009

Alguns conseguem...viver no campo

O Violeiro, Almeida Jr.

"Eu quero uma casa no campo"- Já dizia a nostálgica Elis Regina nos anos 70. Aliás, não só ela. João Bosco (Rancho da Goiabada) e Zé Ramalho (Vida de Gado) também fizeram sua apologia à suposta cultura do interior brasileiro. Aliás, esse mito também sempre existiu na TV. Basta olhar as novelas. Quantas histórias já se passaram em cidades pequenas: O Bem Amado, Roque Santeiro, Irmãos Coragem, só para ficar nas mais conhecidas.

Vamos lá. O homem do campo é bom, mas o da cidade também é. Os valores rurais são antigos e tradicionais, mas isso não quer dizer nada. As tradições aprisionam, o controle social enrijece vidas que poderiam ser mais interessantes; sempre penso nas pessoas que poderiam mudar o mundo e que podem estar aprisionadas em um cartório, em uma venda ou até em uma indústria, apenas pela falta de oportunidades de fazer mais e melhor. Deixar de viver na cidade pode ser mais barato, mas também tem o seu preço.

Não me compreendam mal. Nada tenho contra em morar numa cidadezinha de 10 mil habitantes ou até em cidades que pretendem ser grandes, mas possuem mentalidade inversamente proporcional ao seu número de habitantes; tudo pode ter seu charme. Olhando pela perspectiva de um idoso ou de um incapacitado, não deve existir nada melhor que acordar de manhã com o orvalho escorrendo pelas janelas ou com qualquer outro espetáculo da natureza na sua porta.

De fato, trocar o sossego por uma cultura cosmopolita, acelerada, pode lhe tirar alguns anos de vida. Todavia, para qualquer ser humano em idade economicamente, socialmente e sexualmente ativa, não existe nada melhor. Apenas a cidade civiliza, pois abriga as diferenças, o interior as deixa mais evidentes. Além disso, não precisa ser minoria para querer ter a sua intimidade preservada. É muito bom não ter que explicar quem era o rapaz que entrou no seu apartamento às 03h da manhã; ou ninguém reparar na sua roupa que está abarrotada ou porque você se separou do marido.

O ser humano é um bicho mutante. Algum lugar deste planeta deve funcionar como um laboratório de experimentações, de novas formas e estilos de vida, só assim a cultura vai se expandindo. Este lugar é a cidade e quanto maior ela for, melhor vai cumprir essa função. É certo que nem todo mundo reflete sobre a própria existência e nem faz questão de transgredir, isso é para a minoria pensante. De qualquer forma, a vida faz mais sentido quando damos vazão aos caprichos da vivência e não apenas quando nos preocupamos com o pão de cada dia. Nem que seja para daqui a 30 anos, tudo o que de mais emocionante que você tenha para fazer seja assistir carneiros e cabras pastando solenes no seu jardim.

Jul 5, 2008

Alguns conseguem...ser xenômanos

Jovens em Tóquio, sempre xenômanos

Xenomania é a devoção por tudo o que é estrangeiro, é supervalorizar o importado acima de qualquer equivalente nacional (produtos ou pessoas); é rejeitar a sua mais local referência, seria o contrário de “senso de lar.”Porque algumas pessoas são xenômanas? Por várias razões. A Economia é uma boa desculpa; inflação alta, desemprego retumbante, imagens miseráveis do País rodando a imprensa no mundo, sou brasileiro?.Passar na imigração em qualquer visitinha internacional? Ficar em fila separada? Imagina, não tem preço. Quem não quer ser beneficiário da burocracia anti-imigratória dos países ricos? O bizarro começa quando apenas esses países (desenvolvidos) são a alma-mater, o chamariz de filhos pródigos.Nunca vi ninguém se dizendo herdeiro africano e querendo passaporte angolano, apesar da África ser a segunda “origem” brasileira.

O certo é ser nacionalista? Não necessariamente. Ninguém precisa ser Policarpo Quaresma, o bonito em uma cultura é a sua afirmação, a sua identidade. Dá pra viver num mundo globalizado, lidando com conceitos e consumindo produtos estrangeiros sem ter que tocar fogo na bandeira nem querer ser aquilo que consome. Quando o olhar além mar é levado ao extremo, temos uma atitude chata arrogante. Primeiro porque nasceu no Brasil é Brasileiro, na Argentina, Argentino. Não dá pra mudar. Exceto aqueles que se mudam do país com 5 anos de idade e não voltam nunca mais. Qualquer coisa diferente disso, vira patético. Por mais que existam comunidades estrangeiras no Brasil, especialmente formadas por ex-imigrantes, é óbvio que um país grande como nosso tem condições indiscutíveis de absorver e transformar esse povo. Tive um amigo que ao tirar um passaporte italiano foi à Itália para turismo e questionado pelo dono da pousada em que ficou, de onde era, ele respondeu: “da Sicília” (região de onde vieram seus avós), a resposta do velho: “com essa cara de brasileiro?”.