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Aug 1, 2010

Alguns conseguem...pertencer


Admiro os que sabem pertencer. Os que ouvem, calam, sorriem e seguem – nesta ordem. Comportar-se bem é um dom não só de interpretação, mas de auto controle. É uma catarse ao contrário. Não contestar é, além de uma boa técnica de sobrevivência, uma forma de liberdade.

Algumas palavras nos remetem ao sentimento de submissão: o bairro, a escola, a igreja, o grupo, a sociedade. O óbvio é estar dentro e não fora. É humano estar repetindo os seus semelhantes e anti-humano não reproduzir o sistema.

O outro lado da história é a teimosia, a necessidade de ir contra. Não a revolução – que é um ode à uma outra igualdade – mas a desobediência solitária passível de punição. É não estar feliz quando todos estão sorrindo, mas fazer sorrir de constrangimento, estar feliz com a transgressão e não com a afirmação de valores. Utopia? Talvez. Mesmo os mais singulares seres com o tempo cederam ao que é convencional.

Os artistas tradicionalmente são bons exemplos para os maus exemplos. A arte é em si uma tentativa de fuga. O desafio é compreender quando ela é de fato um grito sincero ou mais uma voz de um coro. Esse tipo de entendimento vai muito de cada pessoa e cabe à crítica nos conscientizar do todo. O problema é que a própria crítica também está dentro de um círculo, assim como os anarquistas, punks, os flaneurs, os loucos, os índios e todos aqueles que acreditam estarem sozinhos neste mundo. Paga-se um preço alto por não se pertencer, o preço da não existência.

Feb 16, 2010

Alguns conseguem...não fazer drama


Gabourey Sidibe, a Claricee do filme “Preciosa”: sofrer é pouco

O drama frequentemente obscurece as questões reais. Isso é um fato mais do que evidente na história das relações. Aliás, o que seria do sofrimento sem o drama? Uma noiva sem um vestido, um toureiro sem o lenço vermelho, um choro que não derrama nenhuma lágrima.

Sofrer é inerente à condição humana, mas sua demonstração não. Dependendo da cultura, assistimos inesquecíveis formas de interiorização das emoções (vejam os budistas) como também podemos testemunhar verdadeiras indústrias de lenço de papel e água com açúcar. Passar por passagens lamentáveis na vida é uma questão de como aprendemos a ultrapassá-las, uns com muita e outros com nenhuma elegância.

Expressar os sentimentos é importante, mas podemos ter diferentes paradigmas. Ouvir toda a vizinhança em coro uníssono quando se termina um relacionamento pode ser brega, mas é mais confortável e sempre teremos um ombro amigo. Enquanto os outros, os que enfrentam solitariamente uma “coroa de espinhos”,podem querer esperar que os outros também o façam e negar-lhes compaixão. Isso é relativo.

O importante é reconhecermos nas tragédias o que fica e, reativar o mais depressa possível. Não significa que não devemos chorar os mortos nem deixar de assoprar as feridas, mas é um dom saber passar por isso sozinho.

Feb 28, 2009

Alguns conseguem...estar sóbrios

Amy Winehouse: brilhante e viciada ou viciada e brilhante?

Num mundo cheio de preconceitos e problemas como o nosso, fico pensando no papel que os viciados de hoje desempenham. Seja para justificar cada vez mais a virtude - os digníssimos exemplos do nosso meio - seja para nos lembrar que há algo de podre no reino da Dinamarca.

Temos uma coleção enorme deles. Há os vícios já folclóricos, como o de trabalhar ou o sexo. Também tem os clássicos: drogas lícitas e ilícitas, roubo, compras, mentiras, status, manipulação, entre outros.

O fato é que nunca se soube bem se os que vivem à margem são causa ou consequência. Se são figuras a serem redimidas e trazidas à tona, ou se de tanta clareza e racionalidade, saíram para um mundo em que o que entorpece ajuda a não magoar suas piores feridas descobertas.

Ser viciado é um problema, disso não há dúvida. A questão é: qual o contrário disso? A virtude? A chatice? Margareth Mead dizia que virtude é quando se tem a dor seguida do prazer; o vício, quando se tem o prazer seguido da dor.

Não estou certo se depois de exercer o vício, sente-se dor - duvido que mais do que quem esteve sóbrio. Sei que sente-se culpa, basicamente as que os "sãos" imputam, talvez por não poderem se juntar a essa tentativa de vida.

Jul 26, 2008

Alguns conseguem...manter a proximidade

Toy vendo a janela - não muito longe de nós, humanos

Não sei se é impressão minha, mas vivemos uma época em que temos cada vez menos amigos, e aqueles a quem damos esta carinhosa alcunha, estão cada vez mais distantes. Há pouco tempo uma amiga me disse que não queria se aproximar de gente nova pois não tinha tempo para “doar” e que as pessoas cobram de você quando você oferece atenção. Fiquei me perguntando o quanto isso tem de “humanidade”. Ela está correta em dizer que só podemos prometer aquilo que temos condições de dar, entretanto, não estou certo o quanto posso subestimar a atenção que recebo de alguém. Não acredito que somos como um vale refeição, um ingresso para o cinema. Pessoas são mundos, já dizem todas as máximas filosóficas, e se nos afastamos de novas pessoas, fechamos portas,eliminamos possibilidades; Fazemos o nosso mundo, imperfeito, o cubículo apertado onde passaremos o resto da nossa breve vida.

De certo, temos muitas pendências formais atualmente: contas pra pagar, chefe pra satisfazer, namorados para agradar (ou vice-versa). Mas temo que seja por aí que comece a nossa miséria. Nem precisa dizer que trocar um café num fim de tarde com alguém interessante por colocar a roupa na máquina é no mínimo humilhante; É como se disséssemos aos nossos sentimentos: o último que sair, apague a luz.

Jun 7, 2008

Alguns conseguem...manter a distância

Julia Roberts e Jude Law em Closer (2004) [referência óbvia]

De todos os desafios que envolvem os relacionamentos, guardar uma certa distância do ser amado é um dos grandes feitos. É sempre necessário nos precaver das armadilhas dos tempos de abundância. A reciprocidade é doce demais, sem ela não chegamos na esquina, não terminamos de tomar um sorvete.

Uma colar de pérolas, um presente sem embrulho, mil metáforas não ilustrariam como é chegar ao nosso limite sentimental. Pior do que não amar ou não ser amado, só a indiferença generalizada, tornar convencional o que era pra despertar furor. Como um animal que é seguido pelos instintos, o ser humano precisa de uma isca, da sua ração. Paradoxalmente, diria também que estamos sempre atrás do que nos perturba, do que nos despreza. Seja como amante ou como amigo, viver próximo demais a uma pessoa é tocar uma gravura com os dedos nus, um belo dia teremos apenas um pedaço sujo de papel, nada mais.